Desabafo de um piloto de companhia aérea

Há quinze dias escrevi sobre minha preocupação com a logística para transporte dentro do Brasil dos 600 mil turistas esperados  para a Copa do Mundo.

Pesquisei o case África do Sul, que apesar das menores distâncias teve sérios problemas  de transporte interno de turistas.

No case África do Sul, os maiores problemas foram gerados por falta de infra estrutura de atendimento a aeronaves e principalmente por falta de controladores de voos.

Aliás, problema que é velho conhecido nosso, mas como já há alguns anos não ouvimos falar do assunto, nós, crédulos brasileiros acreditamos que esteja resolvido.

Pois bem, esta semana recebi, via facebook, um texto atribuído ao piloto de linha aérea Antonio Carlos Cruzeta que é de arrepiar os cabelos de todos nós usuários do sistema aéreo nacional.

Pesquisei a origem deste texto, e o encontrei transcrito no site da ESG, Escola Superior de Guerra, o que dá veracidade ao mesmo e, por meio de uma troca de e-mails, pedi permissão ao comandante para transcrever para este blog, partes deste texto:

Desabafo de um piloto de linha aérea
Para você entender o que é a aviação no Brasil deve-se partir da seguinte ideia: imagine-se dirigindo um carro BMW luxuoso no meio de um safari na África; é mais ou menos assim que um aviador se sente voando no Brasil; você tem uma tecnologia de ponta dentro do seu avião e um sistema precário e ultrapassado a sua volta. Vou explicar por quê.

Atrasos: os atrasos no Brasil têm características incomuns comparados ao mundo afora; quando se tem nevoeiro… somente Guarulhos tem sistema mais preciso para pouso por instrumento, conhecido como “ILS categoria 2”. Curitiba também tem, mas lá é tão engraçado que colocam o sistema para manutenção exatamente em época de nevoeiro. Vergonhosamente Porto Alegre, Florianópolis e Confins não têm esse sistema. Estes sempre fecham por causa de nevoeiro. Manaus, que tem uma localização extremamente estratégica e que sempre tem nevoeiro, também não tem sistema ILS.

Detalhe…”Nos EUA, são mais de 100 aeroportos só com ILS categoria 2”, fora os de categoria 1 e 3.

Se você, passageiro, está indo para Porto Alegre, fique sabendo que seu avião não pode alternar Florianópolis caso Porto Alegre esteja fechado. Florianópolis tem um vergonhoso pátio para apenas cinco aviões; lembrando que no verão Florianópolis recebe mais 150 voos de fretamento, além dos regulares. Este aeroporto supracitado, vergonhosamente, não tem taxiway (pista para a aeronave taxiar até a pista principal), sendo necessário a aeronave taxiar pela pista principal gerando espaçamento maior entre as aeronaves que se aproximam, ou seja, ocasionam atrasos.

Se você está chegando a São Paulo, o problema é parecido. Guarulhos está sempre com o pátio lotado, Vitória e Confins também. Galeão e Congonhas dias atrás ficaram nesta situação, com o pátio lotado. Quem tinha Galeão como alternativa de pouso teve que escutar um “negativo” do controlador para alternar aquele aeroporto. Estava no plano de voo que Galeão seria o “alternado”. Se o controlador aprovou o plano antes de decolar isso significa que é questão de lei e não de conveniência de pátio.

Nordeste. Voar no Nordeste é mais tranquilo por haver menor tráfego de aeronaves, porém lá tem outro problema: o controle de tráfego aéreo tem o desserviço de contar com as aeronaves militares fazendo treinamento que, consequentemente, geram atrasos, geralmente de mais de 20 minutos nas decolagens; o que desencadeia um atraso bem maior quando essas aeronaves chegam atrasadas ao sul do Brasil. Na regra internacional uma aeronave em instrução militar tem preferência sobre aeronaves civis de passageiro em pousos e decolagens, porém, se o País quer adotar regras internacionais ao pé da letra… que construam bases militares específicas para a função militar. Lembrem-se que aqui é o Brasil e não Europa ou EUA, onde os aviões são sequenciados para pouso com separações de 4 km entre aeronaves, enquanto que no Brasil é 8 km entre aeronaves e no caso de Florianópolis chega a 20 km por aeronaves por falta de taxiway.

Saibam que todo piloto brasileiro se sente mais seguro voando nos EUA, Europa e Ásia do que voando aqui no Brasil, fato decepcionante, mas vou explicar o por quê…

Aqui no Brasil existe uma regra: “a menor distância entre dois pontos é uma curva”. Você sabia que quando você sai do litoral brasileiro e vai pra São Paulo você voa em curva? É necessário passar por cima do Rio de Janeiro. Poderia ser direto via Minas Gerais. Esse contorno do litoral gera em cada voo pelo menos mil litros a mais de combustível consumido.

Nos EUA já não existe mais aerovia, somente proa direta para o destino. Lá eles têm acordos com as ONGs e entendem que, quanto menos tempo um avião ficar no ar, menor é o efeito estufa. Se fosse aqui seria o equivalente a você decolar de Salvador e o controlador autorizar proa direto de São Paulo. São mil litros de querosene desperdiçados, sendo queimados na cabeça dos cariocas a cada dois minutos. “Deixe o Greenpeace saber disso, ficará superfeliz”.

A desculpa não pode ser separação de fluxo, já que os EUA são maiores que o Brasil, e onde o fluxo aéreo é cinquenta vezes maior do que no Brasil. O que o Brasil voa em horas de voos em 50 dias, os EUA voam o mesmo em apenas um dia. “Poderia ser pior, se caísse neve no Brasil a desorganização aérea seria uma catástrofe diária”.

Eu como piloto de linha aérea digo sem exagero que voar no Brasil hoje é como estar voando em uma espécie de alerta amarelo. Outro acidente está bem próximo de acontecer. Ao decolar não significa que temos a certeza de pousar no destino nem no aeroporto de alternativa. Outro dia cinco aeroportos estavam literalmente fechados por falta de pátio; Confins, Galeão, Vitoria, Guarulhos e Campinas. Você tem que decolar de Brasília para São Paulo com combustível suficiente para alternar Salvador.

O texto, desculpando eventuais imprecisões no texto do comandante Cruzeta, é de aterrorizar e nos traz grande preocupação com nosso dia a dia, como passageiros e como profissionais de turismo.

Bem, com a Copa do Mundo, levando-se em consideração o que nos conta o comandante, fica totalmente inviável, qualquer projeto de tornar os céus do Brasil abertos durante a Copa.

Onde irão pousar aviões fretados no Exterior para atender as demandas especificas da Copa?

De fato, a Copa acontece de 15 de junho a 15 de julho, inverno, época de nevoeiros, voos lotados, grandes demandas de passageiros em rotas sem voos diretos, ou seja dependendo dos hubs de Galeão, Guarulhos,Congonhas, Confins e Brasília.

Na melhor das hipóteses é preocupante!

COM A PALAVRA, A ANAC.

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